27 de setembro de 2009
25 de setembro de 2009
11 de setembro de 2009
"Passeávamos de mãos dadas pelas ruas. De mãos entrelaçadas. Eu só sentia as tuas mãos. Cruzávamos pessoas que nos olhavam com um ar de espanto. Não tínhamos sexo. Éramos como anjos, a sério.
Isto foi um sonho do qual recuperei estes fragmentos quando tomava o pequeno-almoço num dia cheio de sol.
Há-de chegar uma pessoa que não saiba de nada disto."
Pedro Paixão, em "Vida de Adulto"
Isto foi um sonho do qual recuperei estes fragmentos quando tomava o pequeno-almoço num dia cheio de sol.
Há-de chegar uma pessoa que não saiba de nada disto."
Pedro Paixão, em "Vida de Adulto"
6 de setembro de 2009
Não sonhas. Morres um pouco de manhã e ao meio do dia quando o sol mais queima. Tens de continuar. Tens de esquecer. Não aguentas mais. Tens de acabar, matar, recomeçar a viver. Só que ela está presa por dentro e tu agarrado a ela por um nó da garganta e não sabes o que deves deitar fora, arrancar, vomitar para que ela sai de dentro. Sais à noite com definitivos propósitos de não voltares sozinho.
Compões dentro da tua cabeça uma mulher com um bocadinho disto e um bocadinho daquilo e esperas que bata certo. Levas um bocado do tecido rasgado e queres encontrar o todo. Mas não encontras ninguém.
Pior, encontras alguém que te vem provar sem remissão que não a vais poder substituir tão facilmente porque não há mais nada no mundo inteiro depois dela senão um deserto de tempo que se estende à tua frente onde tudo se torna insignificante e pequenino.
E quando pensas poder voltar atrás, também sabes que não é possível voltar atrás porque tu estás num mundo e ela noutro, os dois tão depressa se afastam, encerrados em planas fotografias em que estão abraçados e já não somos nós. E já te disse, não há "cuincidências".
Compões dentro da tua cabeça uma mulher com um bocadinho disto e um bocadinho daquilo e esperas que bata certo. Levas um bocado do tecido rasgado e queres encontrar o todo. Mas não encontras ninguém.
Pior, encontras alguém que te vem provar sem remissão que não a vais poder substituir tão facilmente porque não há mais nada no mundo inteiro depois dela senão um deserto de tempo que se estende à tua frente onde tudo se torna insignificante e pequenino.
E quando pensas poder voltar atrás, também sabes que não é possível voltar atrás porque tu estás num mundo e ela noutro, os dois tão depressa se afastam, encerrados em planas fotografias em que estão abraçados e já não somos nós. E já te disse, não há "cuincidências".
Pedro Paixão in Nos teus braços morreríamos
5 de setembro de 2009
4 de setembro de 2009
Ela acordou especial, olhou para o espelho embaciado do quente do banho e exclamou “acabou-se o esplendor da alcatifa caseira, a partir de hoje ou sou herói ou nada!” Começou logo por trocar o Nestum-light da dieta pela alpista do Sinatra (seu canário afónico), vestiu qualquer coisa mais-ou-menos moderna e bateu com a porta.
Pelas ruas da cidade, fumou do pacotinho amachucado do SG ventil e piscou o olho aos pavões flamejantes que passavam, criaturas de apetite ainda bronzeadas pelo Sol. Mas logo se deixou de gulodices, hoje queria encontrar um emprego. As comboiadas teriam que esperar.
No CV dominavam parvoíces académicas do género pomposo “Ensaio ardente sobre a estética da letra Kapa” bem como tarefas proletárias em linhas de montagem de grandes empresas. Nos olhos reinava o desejo de ser tudo de novo, outra vez.
Escreveu com giz no preto de uma passadeira “Contra Regra, Policia Sinaleiro, Guarda-Freio, Escultora em Plasticina”. Agora só tinha que escolher!...
Pelas ruas da cidade, fumou do pacotinho amachucado do SG ventil e piscou o olho aos pavões flamejantes que passavam, criaturas de apetite ainda bronzeadas pelo Sol. Mas logo se deixou de gulodices, hoje queria encontrar um emprego. As comboiadas teriam que esperar.
No CV dominavam parvoíces académicas do género pomposo “Ensaio ardente sobre a estética da letra Kapa” bem como tarefas proletárias em linhas de montagem de grandes empresas. Nos olhos reinava o desejo de ser tudo de novo, outra vez.
Escreveu com giz no preto de uma passadeira “Contra Regra, Policia Sinaleiro, Guarda-Freio, Escultora em Plasticina”. Agora só tinha que escolher!...
3 de setembro de 2009
2 de setembro de 2009
1 de setembro de 2009
30 de agosto de 2009
Há quatro meses que não nos vemos, cada um com os seus problemas, ele a refazer uma empresa, eu a curar-me de ti.
Claro que de ti não falo, porque não temos intimidade para isso e porque falar de ti é arriscar-me a reavivar a ferida, a dor que hoje ainda não senti. Por isso nem minto quando digo que já estive mal e que hoje estou bem. Mas, de repente, o meu amigo, o meu novo amigo, sem que pareça vir a propósito, começa a falar de um amor antigo e que não passa, um amor excessivo como o nosso e eu fico preso às palavras que me diz sem cuidar de mais nada.
Como é possível que outros tenham sentido o que eu senti? É um escândalo.
Eu digo-lhe que o meu interesse é puramente literário mas que por favor não pare. Há pormenores, detalhes que são uma réplica perfeita do que fomos, coisas sem importância que guardamos como tesouros.
Olhamo-nos fixamente nos olhos como se um do outro aguardássemos uma resposta a qualquer coisa que não saberíamos pôr por palavras, naúfragos sem desejar salvação. E enquanto ele me conta devagar, com todos os cuidados - é imperioso que nada falte - a despedida, o último abraço, a voz embarga-se-lhe, vêm-lhe lágrimas aos olhos e depois sorri.
Também eu sinto os olhos húmidos, uma vontade de o abraçar, de o proteger, embora ambos saibamos que não há maneira de afastar para longe aquela dor que bate quando quer.
Pagamos a conta e saímos, seguindo calados pelas ruas cheias de um sol sem compaixão. Uma montra lembra-nos com malvada ironia que vem aí o dia dos namorados. Deixo-o à porta do escritório onde nos abraçamos pela primeira vez e continuo em frente sem me perguntar para onde.
Claro que de ti não falo, porque não temos intimidade para isso e porque falar de ti é arriscar-me a reavivar a ferida, a dor que hoje ainda não senti. Por isso nem minto quando digo que já estive mal e que hoje estou bem. Mas, de repente, o meu amigo, o meu novo amigo, sem que pareça vir a propósito, começa a falar de um amor antigo e que não passa, um amor excessivo como o nosso e eu fico preso às palavras que me diz sem cuidar de mais nada.
Como é possível que outros tenham sentido o que eu senti? É um escândalo.
Eu digo-lhe que o meu interesse é puramente literário mas que por favor não pare. Há pormenores, detalhes que são uma réplica perfeita do que fomos, coisas sem importância que guardamos como tesouros.
Olhamo-nos fixamente nos olhos como se um do outro aguardássemos uma resposta a qualquer coisa que não saberíamos pôr por palavras, naúfragos sem desejar salvação. E enquanto ele me conta devagar, com todos os cuidados - é imperioso que nada falte - a despedida, o último abraço, a voz embarga-se-lhe, vêm-lhe lágrimas aos olhos e depois sorri.
Também eu sinto os olhos húmidos, uma vontade de o abraçar, de o proteger, embora ambos saibamos que não há maneira de afastar para longe aquela dor que bate quando quer.
Pagamos a conta e saímos, seguindo calados pelas ruas cheias de um sol sem compaixão. Uma montra lembra-nos com malvada ironia que vem aí o dia dos namorados. Deixo-o à porta do escritório onde nos abraçamos pela primeira vez e continuo em frente sem me perguntar para onde.
Pedro Paixão, em "Amor Portátil"
28 de agosto de 2009
26 de agosto de 2009
25 de agosto de 2009
"E quando o corpo cansa e a alma entristece não faças caso. De vez em quando o mundo também precisa de descansar. Admira as árvores e as nuvens e a sua indiferença por ti. Não queiras ser o centro de nada. À tua volta descobre o que não és. A frivolidade gasta a alma numa inútil correria. Sê humilde e sensata. Se for preciso torna-te pesada como uma pedra que, embora pesada, não se levanta contra ninguém. E se for preciso sê como o chicote que corta."
23 de agosto de 2009
E eu economizo ao comunicar isto em concreto,
E eu fico indeciso se eu quero ficar vazio ou completo,
A mim não me compete fazer a escolha,
Só escolho fragmentos de momentos duma recolha,
De sentimentos, e eu sento e minto se eu disser que não sinto a tua falta,
Sinto a ausência duma falta de paciência que te exalta,
Ou exaltava, porque agora silêncio é despertador,
Que desperta humor desperta a dor em mim que eu....
hey pá foda-se
E eu fico indeciso se eu quero ficar vazio ou completo,
A mim não me compete fazer a escolha,
Só escolho fragmentos de momentos duma recolha,
De sentimentos, e eu sento e minto se eu disser que não sinto a tua falta,
Sinto a ausência duma falta de paciência que te exalta,
Ou exaltava, porque agora silêncio é despertador,
Que desperta humor desperta a dor em mim que eu....
hey pá foda-se
sam the kid, hereditario
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