Não sei se me faço entender mas o seu encanto, indiscutível, sereno, luminoso, e mais não digo, era do género de nos pôr a pensar coisas absurdas a partir de uma simples observação. Sentados, por exemplo, a tomar cafés frente à arte popular, quando um ciclista de corrida passava a treinar dizia que devia dizer-se biciclista ou, na pior das hipóteses, cicleta. Parece humor mas era uma coisa muito séria.
E profunda. Horas e horas a dissecar, por entre muitos toques ao de leve no corpo, horas sobre a fraude constante da linguagem, que nos afasta quando queríamos dizer tanta coisa, ser capazes de dizer tanta coisa.
O melhor é não dizermos nada e sorrirmos de vez em quando como dois idiotas, ou falar cada um a sua língua, ou brincarmos os dois aos surdos-mudos.
Helder Moura Pereira
LÁGRIMA
poesia inédita portuguesa
Assírio & Alvim
2002