"(...) O tom, o tom, não finjas que não compreendes, Não insistas, peço-te, Insisto, preciso saber, Voltamos às esperanças, Pois voltemos, (...)
Explica-te, por favor, não entendo de charadas, Porquê, Para continuarmos a viver assim, Queres dizer, todos juntos, ou tu comigo, Não me obrigues a responder,(...) responde,
Eu contigo, E por que queres tu viver comigo, Esperas que o diga diante de todos eles,
Já que o queres, então seja, porque o homem que eu ainda sou gosta da mulher que tu és, Custou assim tanto a fazer a declaração de amor,
Na minha idade, o ridiculo mete medo, Não foste ridículo, Esqueçamos isto, peço-te,
Não tenciono esquecer nem deixar que esqueças, É um disparate, obrigaste-me a falar, e agora, E agora é a minha vez, Não digas nada de que te possas arrepender,
Se eu estiver a ser sincera hoje, que importa que tenha de arrepender-me amanhã, Cala-te,
Tu queres viver comigo e eu quero viver contigo, Estás doida, Passaremos a viver juntos aqui, como um casal, e juntos continuaremos a viver se tivermos de nos separar dos nossos amigos, dois cegos devem poder ver mais do que um,
É uma loucura, tu não gostas de mim, Que é isso de gostar, eu nunca gostei de ninguém, só me deitei com homens, Estás a dar-me razão, Não estou, Falaste de sinceridade, responde-me então se é mesmo verdade gostares de mim,
Gosto o suficiente para querer estar contigo, (...)"
in Ensaio sobre a cegueira de José Saramago