Na semana passada, Teixeira dos Santos reconheceu a retroactividade e a inconstitucionalidade dos 'novos' impostos. Mas logo a seguir, e através de uma cambalhota czarista, o mesmo Teixeira dos Santos suspendeu a Constituição: para justificar a inconstitucionalidade fiscal, o ministro invocou uma situação de emergência (eu ainda olhei pela janela à procura dos tanques espanhóis que justificariam a convocação daquele "estado de emergência", mas não os vi). Como é óbvio, caro Presidente, esta posição de Teixeira dos Santos é um absurdo perigoso. Mesmo que a resolução dos problemas do país implicasse a convocação de um "estado de emergência", essa prerrogativa caberia apenas ao Presidente. O "estado de emergência" não é um expediente burocrático. É o acto político por excelência, e não pode ser invocado por um ministro das finanças pedinchão.
Eu esperei, mas V. Exa. não reagiu a esta ofensa. Um ministro afirmou, com todas as letras autoritárias, que a máquina fiscal está acima da Constituição, mas V. Exa. não disse nada. Meu caro Presidente, este seu silêncio é inadmissível. E de duas, uma: ou V. Exa. concorda com Teixeira dos Santos (neste caso, V. Exa. não seria um grande político, mas apenas um bom contabilista), ou V. Exa. tem medo de causar uma "crise política". Eu estou inclinado para a segunda hipótese. E, neste sentido, deixe-me dizer-lhe uma coisa: o seu silêncio acrítico em relação a este governo já enjoa. V. Exa. acha que está a fomentar a estabilidade. Engana-se. V. Exa. está, isso sim, a pactuar com a podridão czarista deste PS. Os socialistas vão suspender a Constituição por seis meses, e V. Exa. anda a dar aulas de turismo e de "ética da responsabilidade". Não goze comigo, V. Exa. "
Henrique Raposo, no Expresso.