31 de outubro de 2007

" Eram três da tarde e, em vez de voltar para o escritório como tinha de ser, resolveu ir ao barbeiro. Não precisava de cortar o cabelo. Do que precisava era de parar para pensar. Há dias em que uma pessoa se sente tão confusa que não consegue continuar.
A vida é uma mistura de coisas que se repetem e de coisas que só acontecem uma vez. O que é estranho é poderem ser as mesmas. Um corte de cabelo, pelo contrário, é sempre irreversível. Talvez fosse por isso que uma visita ao barbeiro lhe surgia como um pequeno marco do qual, como de um banco a que se pudesse subir, se pudesse alcançar melhor por onde se passou e para onde se vai, ou então uma esquina donde convém voltar a olhar para trás uma última vez antes de a virar irremediavelmente. Ir ao barbeiro era uma maneira de pôr a cabeça em ordem. "


Pedro Paixão

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