Não tenhas medo de mim. Eu só preciso de ti. E basta dizeres «chega» para que me afaste e não volte sequer a telefonar-te. Acredita. Não tenhas medo de mim. Esta aflição não é de agora, tu não tens culpa de nada. Se quiseres podes encostar a tua cabeça ao meu peito e chorar todas as lágrimas. Eu choro sozinha, eu sou corajosa. Foi logo no primeiro beijo que me entreguei e me perdi. Tu não tens culpa de nada, sossega. Tu chegaste muito tarde, só agora. E o primeiro beijo foi há muito. Não espero nada. Nem em sonhos. A única coisa que acontece é isto continuar sem que eu saiba como, e eu sei que nem o teu amor, se ele existisse, me poderia salvar. Eu não preciso de ti. Eu só preciso de ti. Não tenhas medo.
A culpa é minha. Não tive cuidado. Julguei que o amor era outra coisa. Acreditei nas palavras que me disseram. Ninguém me disse que era preciso ter cuidado. Acordamos de manhã, abrimos os olhos, reconhecemos o quarto em que vivemos. Quando me entreguei foi para sempre. Não tive cuidado. Levaram-me para longe, para longe do meu quarto. Disseram-me: «O mundo é todo teu, agarra-o» e eu acreditei que assim era. Que bastava estender uma mão, suspirar um desejo, que o tempo existia por estar à minha espera. O meu amor estava dentro de mim e ninguém tinha morrido. Eu própria me julguei imortal, tive a certeza, enquanto o mundo abria as suas janelas, uma a uma, para que o contemplasse. O mundo e eu, nós dois, e o meu amor que os ligava. Agora pode parecer estranho, mas então nada era estranho. Eu era uma alegre criança cheia de vontade de viver. Não era preciso ter cuidado.
Não foi de repente que tudo mudou, que fiquei aflita, nesta aflição em que sufoco. Eu demorei muito tempo a acreditar nas coisas mais simples, em coisas que toda a gente sabe desde sempre. A maldade, por exemplo, parecia-me incompreensível e por isso necessariamente inexistente. E o ciúme, e a inveja, e a mentira, e a traição, sim a traição foi o que mais me doeu sempre. Não sei porque foi assim. Porque tem de ser assim sempre. Nem julgo que alguém saiba. Ainda me repetem que insisto em continuar a ser uma criança, que o mundo é muito árduo, que é por minha inteira culpa de cada vez que me engano. Riem de mim. Eu engano-me tanto. Eu acreditei que o primeiro beijo fosse o último.
Aprendi que a vida se constrói para além da nossa vontade. Que não caminhamos sobre terra firme, mas sobre água que os nossos rastos confunde e apaga. Que as minhas palavras fogem de mim para longe, mal são ditas, se separam. Que os corpos têm desejos infindáveis que desconhecemos e assustam muito. Que o mundo que me ofereciam era vazio e silencioso e triste. Que a morte caminha, passo a passo, ao nosso lado. Não foi de repente, foi quando, pouco a pouco, me deixaram, me traíram, me mentiram e eu decidi vingar-me. Foi a pior coisa que me fiz. Foi de mim que me vinguei. Não julgues que foste tu. Tu não tens culpa. Antes de ti eu já sofria o inevitável. Só vieste lembrar-me o que não pude esquecer. É tarde agora.
Agarro com força a pequena almofada que tenho entre os braços e penso em ti. Não sei nada. Vens a mim ao de leve e depois largas-me. Para te ver a cara tenho de te surpreender em movimento, fechando uma janela, calçando um sapato, saindo do carro. Tu não eras quem eu esperava que fosses. Estamos sempre a imaginar isto e aquilo e sempre a confundir isso com o que está para vir e vem de outra maneira. Eu pelo menos. Eu tenho uma enorme vontade de te dizer tudo numa só palavra e depois ficar calada, não dizer mais nada. Eu quero que sejas só tu a saber. Eu tenho a infinita certeza de que me estás a ouvir, não sei como. Há aqui qualquer coisa de mágico, uma invocação por palavras que nos transporta para um lugar sossegado.
E de repente tudo se desfaz. Não posso deixar de te dizer que não te quero a meu lado, nem por perto. Que de repente há um barulho em que as palavras se transformam, assustadoras, que quero ficar sozinha, longe de ti, como agora, muito longe aqui fechada, agarrada à almofada pequena. Tu não és o primeiro. És só outro que vem para me roubar de mim. Acredito que com a melhor das intenções, sem qualquer maldade. A maldade vem depois quando já não se aguenta de outra maneira e dói por todo o lado e nos tornamos iguais àqueles que detestamos. Os outros são como nós. Tu também és como os outros. Um que passa. De cada vez mais lentamente, é certo com mais dor, da pior maneira. Tu não és o primeiro, nem sequer o último que provoca em mim esta paixão de que só eu sou culpada. A paixão que é minha, que me arrasta, me arrasa. Digo-te isto tudo porque sei que não podes ouvir-me. Minto-te porque não sei encontrar a verdade. Sofro sem de mim ter piedade. Eu mereço aquilo que te faço, engano-me com o amor, sem desculpa.
Sei que fui eu a chamar-te. Estava aflita. Lembrei-me de ti e disse-me: vais ser tu a livrar-me desta aflição. Não sei porquê. Talvez porque já tivesse tomado outras medidas, feito outros esforços sem qualquer resultado. Talvez porque soubesse que tinhas de ser tu por assim o ter decidido. És tu, vais ser tu, tens de ser tu. E no princípio pareceu dar resultado. Telefonei-te para dizer que precisava de estar contigo e tu vieste a correr, como um menino. Não devias, mostraste-me outra vez esse estranho poder, o desejo. Não esperei que fosses bonito mas a tua voz por detrás de ti encantava-me. O teu sorriso lembrava por vezes a serenidade de um Buda. E por mais que dissesses a tua dor eu não acreditava, eu só sentia a minha a desfazer-me. Servi-me de ti como quem bebe um xarope, pela garrafa, desculpa-me se assim to digo. Ao meu colo tu eras um menino a choramingar por ter partido um brinquedo. Essa mulher por quem sofrias nunca existiu senão como personagem de livro. È assim que o sinto. E assim que mo fizeste sentir e é só isso que importa, é disso que se trata. Aliás, era difícil distinguir em ti o que fazia parte deste mundo, do outro onde me protegias, te escondias, te fazias passar por quem não eras. Falo-te com raiva porque já não me serves de remédio e tenho de encontrar outro mais fácil e não é fácil.
Sou facilmente magoada. Sou facilmente usada. Deixo-me usar. Contigo ainda foi pior. Porque tudo parecia ser como não era. Para ti eu era material de literatura. Até podia parecer que estávamos bem um para o outro. O teu analista dizia-te que só me podias ajudar, fazer-me bem. O que saberia de mim o teu analista senão o que lhe dizias e desejavas ouvir. Sim, arranjaste todas as desculpas para me teres e para me deixares. Para te entreteres, para recomeçares a escrever, para teres a ilusão de que fazias alguma coisa dos teus dias. Para saíres da cama e assobiares. Eu servi-te de tudo. Mas sobretudo de desculpa para continuares quando não encontravas vontade ou razão ou motivo que fosse para continuares. Fui a tua desculpa.
Foi então que encontrei aquele pó branco que alivia. Não te culpo disso. Se não fosses tu, seria outro. Sou eu que me faço mal a mim própria e não consigo sair disto. È uma dor muito antiga que volta sempre. È uma dor que só pode ser expulsa por outra maior. Aquele pó branco anestesia. Sei que não tenho perdão. Nem o procuro. Sou responsável por tudo o que me faço. Isto já começou há muito tempo e não parece ter fim e o pó branco ajuda. O pó branco é uma coisa com quem não precisas de falar, que não tens de acariciar, que nada te exige em troca de prazer. E uma coisa que te não pode mentir, porque é uma coisa inerte, fria, morta. É a única coisa que te pode aliviar. Desculpa-me dizer-to. Tu não tens culpa. Foste só um a passar. Doeu como dói sempre. Nada assim de tão particular. És um menino no meu colo que se cansou e adormeceu. Gosto de pensar assim em ti. Dorme agora. "
'Se o amor for outra coisa" (págs.106 - 111) do livro "Amor Portátil" de Pedro Paixão
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