27 de maio de 2007

Fluxos

Alguém havia de inventar um aparelho qualquer que permitisse gravar sensações, emoções e momentos. Há tanta coisa que me apetece transmitir, e que na altura até acho que sou vagamente capaz de o fazer por palavras, mas que, breves instantes após o momento ter passado, começo a ver o quão presunçoso isso é da minha parte.

Há certas coisas que pura e simplesmente não se podem traduzir. Uma delas é o por do sol na foz. Digam o que disserem, cá pra mim existe um fluxo migracional qualquer que, ao fim do dia, une tanta gente diferente em meia duzia de metros. O mais curioso, é que o que é de morrer nem é o pôr do sol, que obviamente também tem a sua quota parte no processo, mas não, o melhor é ver pessoas tão diferentes e em circunstâncias completamente distintas, por minutos, procurarem exactamente o mesmo que eu. Aquele momento em que o sol vai descendo até desaparecer completamente.Adoro o facto de o ser humano ter ainda o seu quê de animal, e sermos não mais que uma analogia da Marcha dos pinguins.

Há de tudo, há os solitários, como eu, que precisam daquele período para estarem consigo, e que não vêem nisso solidão. Há os solitários, mesmo solitários. Há os casais com as juras de amor eterno face ao panorama paradisiaco. Há as amigas que trocam confidências e prometem assumir o comando das suas vidas a partir daquele momento. Há os fotógrafos que documentam o momento. Há os estrangeiros que não sabem se olham para o sol, se apreciam as ondas, se respiram o ar do rio, ou se lhes apetece antes espreitar o mar. Há os desportistas cuja meta é chegar onde quer que seja antes do sol desaparecer. Há gente mais velha nas janelas, que respira fundo como se fosse o último fôlego. Sei lá ... Há uma mistura imensa de cultura e de aculturados, pessoas novas com tanto por viver, gente mais velha com tanto já vivido, um montão de histórias por detrás de cada personagem singela que ali está, e contudo, ali estamos, todos, a ver o mesmo.

Gosto de pensar no que as outras pessoas estarão a pensar. Se vêm no por do sol um momento de esperança? Talvez de tranquilidade? Ou será renovação? Agarrarão daqueles breves instantes algum tipo de força ou coragem? Não sei. É-me mais que suficiente pensar em tudo, e querer estar na cabeça de todos eles ao mesmo tempo, perguntar de onde vêem, para onde vão, porque estão ali, e o que estão a sentir.

A melhor coisa é estar sozinho e ao mesmo tempo sentir que se é parte de alguma coisa maior, mesmo que seja utópico. Claro que é óptimo partilhar, mas momentos como estes, são demasiado complexos para serem passados a conversar. São momentos que quando tiver de passar com alguém, vai ser de mão dada, a ouvir uma das duas musicas que estavam a dar no mp3 enquanto tentava desmistificar o fluxo migracional "Rumo ao por do sol@Foz":
Norah Jones - Take off your cool ou Lamb - What sound, que diz qualquer coisa como:


What is that soundRinging in my ears
The strangest soundIve heard for years and years
The sound of two hearts
Beating side by side
The sound of one love
That neither one can hide

The sound that makes the world go round
The sound that makes the world go round

Há coisas que simplesmente não se explicam, e a felicidade que me proporcionam momentos como este, é uma delas. Estou mesmo bem disposta!

PS. Hei de fotografar isto.

1 comentário:

Anónimo disse...

Vá lá, um fluxo de jeito. Congratulations.