27 de maio de 2007

Burguesas

"E falei tudo muito explicadamente porque já era tarde, conhecia o temperamento dos homens desde o princípio dos tempos e, sobretudo não tinha fôlego para nenhuma réplica.
Era preciso que o discurso fosse suficiente e inapelável:
- Ouve: tenho uma coisa para te dizer. Conheci uma pessoa que me impressionou. Não sei o que é, nem me interessa, mas há qualquer coisa. Aguenta-te. Vocês vão para a tropa para quê? É que entre isto e andar a mentir-te achei preferível dizer-te. E não me perguntes se eu ainda gosto de ti e essas perguntas tipo sim-ou-não, porque as mulheres não funcionam assim. Digo-te já que não sei, e nem sei se vou saber tão cedo. Gosto de ti porque foste meu, e gosto de ti porque poderás voltar a sê-lo um dia, se quiseres ou achares que vale a pena. Agora não gosto tanto, porque como penso noutra pessoa não tenho consciência de mais nada.
Não o deixava falar de propósito, e fugia para a frente apavorada.
O drama era dele, mas o cansaço era meu e naquela altura valiam o mesmo"

Uma mulher não chora
Rita Ferro

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